Nogueira

As folhas secam e caem no outono.
Mas ainda me resta o tronco
e, assim, darei sombra.
Sentem aqui e me observem.
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Eu que já não possuo a força de antes
nem a beleza me é presente.
Velho demais para chorar,
velho demais para viver ainda.
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Bem, a verdade é que dei frutos
e de mim, saiu o nós.
Fiquem ao redor, preciso confessar
aquilo que não é fácil.
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Meu reflexo insiste em me datar.
A primavera não vem mais.
As flores não serão amarelas.
Receberei um coroa branca, talvez.
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Branca como o meu corpo.
Corpo moldado, porém forte.
Resistente às intempéries,
mas mutável.
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Sou grande no tempo passado.
Hoje os galhos secam,
meus braços não têm forças.
Tenho uma dívida com a vida.
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A natureza me cuida por instinto.
Nenhum de nós retornou.
Oro às raízes um sentimento.
Filhos, me perdoem.
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Quem me dera ainda pudesse
lhes ser sombra no verão.
Antes não tivessem rolado!
Não resistirei ao próximo inverno.
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Hoje tomei banho e chorei sob a água.
O que me dava forças,
se mistura às lágrimas.
A pele não está enrugada de frio.
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Nós. Eu no plural. Existe?
Todos vocês germinaram.
Ainda carregam meu nome.
Mas que parte de mim virou amargura?
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Do alto da copa eu penso no fim.
A terra secou; eu já vi a guerra.
Pouco a pouco desfaleço.
Vocês podem ver daí?
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Sentem-se à sombra que ainda tenho,
propicio uma tarde a mais.
Deitem sobre as folhas secas.
São memórias do que já fui.
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Amanhã, mesmo que não notem
ainda morrerei um pouco.
Depois mais.
O vento há de espalhar os nós.

Cachorros e estrelas na esquina

Onde se abrigam os cachorros durante as intempéries? Falo destes que, assim como eu, antes andavam por aí cruzando a cidade e uivando a solidão. Os que latem contra a penumbra da angústia de não poderem tocar as estrelas.

O que acontece quando cães e estrelas atravessam a mesma esquina? Se pudessem, viajariam o mundo em busca do monte mais alto. Eu o faria. Lá, rasgariam as cordas vocais numa tempestuosa discussão com os céus.

Será que as nuvens transmitem recados? Ou mesmo a lua fará isso por nós? Não há abrigo para os vira-latas quando chovem facas sobre as telhas dos homens. Todo coração está exposto ao tempo.

No relento, chacoalhando os pelos encharcados de sangue, curam-se os cães. É assim que faço. E voltam a rondar pelas avenidas improváveis, catando lixo para se sentirem bem.

Num ato ingênuo, ainda desejam as estrelas. Essas que concordaram com o céu. As mesmas que permitiram a chuva dos fios dilaceraram seus peitos. São muitos cães feridos, ouvi dizer.

O corte dos sentimentos parece curar tão rápido. Ficam cicatrizes que indicam a vida de aprendizado. Mas cachorros de rua não são adestrados. Assim como eu, buscam parar na mesma encruzilhada que uma estrela qualquer.

Tantos outros feridos lhes cairiam bem. Mas é melhor uivar sob a lua que já nem ilumina tanto assim em meio aos postes da cidade. Talvez um dia encontrem seus desejos de frente.

O que acontece quando cachorros e estrelas cruzam a mesma esquina? Eu aprendi que o amor é poeira que se varre e noutro dia ainda está lá.

Timidez

E o sol, que tinha inveja da sua pele,
se escondia por trás de nuvens densas.
Envergonhado e tímido lamentava
não ser o centro das atenções
na praia de Ponta Negra.

Por isso chove em Natal, chove forte.
É que sua cor, como de cobre aquecido,
espantou o sol que ficou de longe.
A menina também chora na varanda.
Se agasalha com saudade do calor.

Num apelo ela diz “volta”.
Quanto mais azul, mais quente o céu.
O cinza não combina com seus olhos,
é melhor ver os raios refletirem
nas castanheiras sobre seu corpo.

Por que as estrelas não se entendem?
Seu brilho moonlight não basta,
e conta as horas para o nascer do dia.
Será que ele vem? Se pergunta a menina.
Será que ela vai? Reclama o sol.

Este impasse deve logo ser resolvido,
nasceram um para o outro, brilham juntos.
Então ele há de vir numa hora qualquer,
queimando a pele saudosa.
E, enfim, incinerando os temporais.

Tanto a perder

E eu acordei num surto:
ansiedade engatilhou.
Dois anos, duas mortes,
é muito luto, meu Senhor.
Faça-me o favor,
me dê uma dose de clemência,
perder entes queridos
é a pior das penitências.

Irmão, com a dor,
meus coração ficou duro.
Preciso admitir que
não me sinto tão maduro.
Ao contrário,
me sinto podre e estragado,
cada soprar do vento
leva alguém do meu lado.

Pedaços importantes
se desgastam com o tempo,
lamento, não tenho um segundo
pra explanar o sofrimento.
Eu vou chorar!
Eu já chorei.
O foda é admitir
que eu ainda não superei.

Você que tá aí em cima
me explica essa brincadeira,
a roleta russa no céu
é com o pente carregado?
Esse lance é muito injusto
não tem sorte do meu lado
e quem mirou na minha cabeça
deu o mérito pro acaso.

A desgraça vem pá, pá,
dois tiros no meu peito.
Lembrar que sou humano
enquanto choro no meu leito.
Voa o tempo como cinza
ou areia de ampulheta.
Então eu olho ao meu redor e vejo:

Que temos tanto a perder.

Amor, fé,
esperança e outras drogas.
Ninguém me ensinou
sobre isso na faculdade.
Aprendi a escrever sozinho,
escolhi minha escola,
mas não achei um jeito
de falar sobre saudade.

Quanta dor aguenta um coração?
Descanse em paz, Rutielson!
Essa é minha oração.
Você sabe quantos
eu visitei em um caixão?
Quantos dias no meu quarto
eu flertei com a solidão?

Só Deus sabe!
Só ele pode me julgar.

Sempre caminhei sozinho, sem carinho,
sem ninguém, mas isso tem que parar.
É tudo medo,
pois tudo passa, essa é a verdade.
Quantos romances
tive aos 25 de idade?

Aprendi a lidar com a dor,
superei a depressão;
eu já perdi um amor,
eu já perdi um irmão.
Eu já perdi um amor,
eu já perdi um irmão.

Toda desgraça é um lembrete.
Que temos tanto a perder!

No farol

Ouça, tenho uma pergunta a fazer.
Por que nos comprometemos ante o fim,
se somos a promessa sob o pôr do sol
que se esquece no amanhecer? 

Amor transiente, escuro e intangível.
Onde habita a luz do farol?
No píer dos nossos corpos
que adentra o mar e, corroído, se afoga.

Isto é importante. Não posso controlar
as nuances do passar do tempo.
Como haveria eu de dar-te todos os domingos?
É dubitável como o acordar. 

Amor abstrato, fincado e atroz.
Os barqueiros na baía não enxergam mais.
Deito agasalhado com a penumbra do teu nome.
Onde fomo-nos para que não soubéssemos regredir? 

Tenho tua atenção na despedida.
Por uma frecha, por um prisma único.
Do que adianta correr contra as sombras?
Eminente empate na disrupção da partida.

Amor jovial, inconsequente e estúpido.
Não há sempre que dure tanto.
Quem seremos no domingo à tarde
da próxima semana? Ninguém.

Ninguém.

 

José

José caminhava pela casa enrolado na toalha de banho e com o pensamento confuso. A areia no piso de cimento batido estava incomodando, mas não tanto quanto a vontade de voltar e refazer tudo. Era mais uma noite de carência, dessas em que um abraço demorado parece ser a solução.

Sua imaginação era, naquele domingo, um misto de sofrimento com ansiedade. O que é possível desfazer? Na realidade nada, tudo é eterno no momento em que acaba. José sabia disso. Havia passado um bom tempo desde o luto, desde que abdicou de um beijo específico, desde que foi deixado de lado. Saudades machucam o peito do homem que caminha impaciente pela casa.

Da cozinha para o quarto, do quarto para a sala. Passos fortes, firmes, olhar fixado no canto que está mal pintado. Onde está José? Ali, perdido no amor que não sente. A carne clamava por alguém em sua cama, o corpo de Aninha parecia lhe tocar de tanto que desejou alguém. Passou a mão na parede em que já havia feito loucuras. Não é mais jovem, o José.

Ao lembrar dos velhos amigos, o sempre solitário ser sorri de canto. Não passam de fantasmas que reaparecem vez ou outra na solidão. Não passam de palavras vazias que já não têm sentido, como alguns poemas de seus papéis antigos. José para em frente ao espelho e retira a toalha. Não vestia nada por baixo e encontra-se completamente nu. Observa seu próprio corpo e questiona a crueldade do tempo.

Marcas em algumas partes, uma quase ereção pelas lembranças que teve com seus pares de luxúria e uma lágrima no canto do olho. Quem é José? Talvez um menino cheio de traumas e feridas abertas, cheio da consciência sobre si mesmo e totalmente vazio de forças. Ela vem a mente de novo. Por ser o último afeto que teve, a memória sobre ela mascara a repulsa que sentiu no término.

Ao mesmo tempo outras pessoas começam a aparecer como sombras nebulosas. É uma visão de longe, mas que o faz sentar na cama e pensar. Por que não elas? Não são Aninha. Não são Madalena. Não são o passado. O coração chega a pulsar mais forte ao pensar na possibilidade de se aventurar. Elas têm nome, rostos e talvez a disposição de José. São mulheres que despertam o interesse.

Aproveitando a fome, o carente homem caminha novamente até a cozinha. Escolhe uma música triste e começa a ouvir. É uma bela canção sobre saudade. José se percebe ainda nu e ri. Se abraça um pouco, sente sua própria pele, depois escolhe algo para comer. A cabeça parece mais leve. De volta ao quarto, toma as vestes do guarda-roupa velho e torto e se prepara para dormir. Talvez amanhã não pense nisso.

José deita, deixa a luz apagada, liga o ventilador e adormece devagar. Como está José? Ainda aflito e com muita falta de algo, talvez preocupado em não ser bom o suficiente para ninguém. Mas pelo menos agora pode dormir depois de uma noite intimista. Seus pensamentos caminham sem direção. Ele desliga a música, fecha os olhos e pensa que um dia quer aprender a dançar.

Metade

Metade sua sobrou na curva,
metade minha tirou o cinto.
Metade sua ficou nas ferragens
e metade minha voou.

Era uma colisão de exageros:
por liberdade e por apego.
Atravessamos o para peito.
Capotamos com tudo.

Metade sua vomitou do barco,
metade minha ancorou.
Metade sua pulou sem colete
e metade minha foi levada pela maré.

Era uma viagem homérica
regida pela carência carnal.
Embarcamos sem nada pronto,
não havia quilha, vela, nem timão.

Metade sua era um tanto menos,
já minha metade era excessiva.
Metade sua queria o acaso
e metade minha era constância.

Nenhum de nós era um todo,
mas antes metades fugazes e incertas.
Fiquei metade partida ao meio
porque sua parte não chorou por ir.

Metade sua ia-se no longe alto,
metade minha sabia correr.
Metade sua pulou de um abismo
e metade minha morreu também.

Madrugada

Sabe, eu tenho desabafado pouco porque pra muita gente é como se eu tivesse me fazendo de vítima. E apesar de tudo, eu até entendo. Espera-se que com o tempo a gente aprenda a lidar com os problemas. Não importa qual o trauma, qual a dor, qual foi o caminho que tomamos até agora. Eu nunca ouvi falar em prazo de validade pro sofrimento, mas tenho a impressão de que ele nunca acaba.

Tô cansado de tentar gritar qualquer coisa ou fingir que tô bem. Mas também tô cansado de ter a esperança de que alguém vai me ouvir só por ouvir, sem falar nada de si. Eu tô cheio de mim. Tenho medo de mim. Não é vitimismo, eu juro. Nunca fui preto assumido e sempre tinha um mais escuro pra sofrer o racismo no meu lugar. Inclusive vindo da minha parte. Mas sabe, acordar como quem dormiu abraçado com uma faca é complicado. Todo dia dilacerado. Sinto sempre que falta um pedaço.

Eu tô entendendo a lógica dos amigos, em dar apoio se eu digo que tô mal. É o que se espera, né? Mas eu não me sinto seguro com nada, no trampo eu não penso em nada, é como se tudo fosse a fachada duma casa que por fora brilha, mas por dentro é vazia e toda acabada. Talvez eu seja um gênio mesmo, por evoluir tanto sem ler merda nenhuma. Ou talvez isso só mostre o abismo de sentimentos que tenho guardado durante essa vida.

Eu converso, mas parece que eu tô fazendo drama. Desculpa, mas não finjo nada bem. Eu tô mal de verdade. Não quero massagem no ego, não tenho essa vaidade. Já era pra eu estar tranquilo? Mesmo morrendo de saudade? Sinto falta da ex, do irmão, do jogo de bola sem maldade, de quando eu era menor de idade e que eu só tinha que estudar aqueles lances de geometria. Fracassei na faculdade e não tô mais na melhor idade pra abdicar de coisas e fugir. Troquei de emprego, mas a vida ainda é minha e eu só faço besteira.

Não sobrou muito na carteira mês passado. Fiquei no vermelho, eu tenho o nome sujo pelos meus próprios pais. Nunca tive um intervalo muito grande de paz. Quando virei rapaz, entendi cedo a vida com esses olhos de poeta. Sabe, a gente sofre mais e ninguém sabe bem como ajudar. É que parece tudo arte. A dor é arte, a tristeza, a melancolia, o luto, a alegria, o medo e a euforia. Mas na real é tudo depressão. Eu tô descendo e não tem água no fundo do poço. Vou quebrar minhas pernas e não vou saber levantar.

Não faz sentido acordar às seis e chegar às nove. Às vezes mais. Não faz sentido sentir tanto e não ter coragem de desabafar. Eu saí da terapia por falta de dinheiro. Tava comendo ele todo, engordei dez quilos. Eu não sou atraente, eu sou meio derrubado, que nem eles falaram no ensino médio. Como ela falou na adolescência. Como eu ouvi na roda de amigos. Mas eu compensava no talento quando recebia os insultos. Escreve mais, escreve mais pra ser aceito. Escreve o que ela, ele, todos gostam. Tem texto pra impressionar geral. Sou feio, mas eu sou legal. Olha a merda que eu fiz! Hoje eu tô por um tris pra não ser só um papel rasgado, sem valor. Sou poeta, tenho um livro que nem eu gosto de ler.

Tô devendo muita coisa, parece. Tão querendo me obrigar a agradecer. Mas a verdade é que eu nem sei o que tenho que fazer. Só queria renascer noutro corpo. Mas nem acredito nessa. É daqui pro inferno e se der sorte, pro céu. Eu tô perdido, mas precisava falar isso tudo. Se quiser levar como mais uma obra-prima, tudo bem. Tô acostumado a ser ignorado em detrimento da poesia e a ser questionado quando falo sobre isso. É coisa minha, mas um dia muda. Eu saio dessa qualquer dia, mas não prometo que será com vida.

Extinção

Há de cair um meteoro na Terra
fazendo os separatistas correrem.
Os pretos e pobres seguem a vida,
já morreriam de qualquer forma.
Ao menos agora eles não lidam
com uma ansiedade apavorante.
Os covardes logo se trancam
em castelos que vão ruir devagar.
Mas isso não é arca nem dilúvio;
não foi deus quem fechou a porta.
O meteoro vai cair com tudo,
com fogo absurdo sobre arrogantes
e sobre os humildes. Morte.
Todos morrem ao mesmo tempo
e só eu ficarei vivo no pó.
Sofrendo a solidão mais uma vez,
usando a desculpa esfarrapada
de que alguém, no fim, precisa
escrever essa tragédia.

Autorreflexão

A dor na garganta
é a vida entalada.
Não consigo falar, expelir,
mas também não desce.
Está aqui, a um engasgo da morte,
e o ar passa por brechas estreitas.

Me sobrou pouco da sanidade
que tive em tempos passados.
Está doendo na pele,
como dói o sol de domingo a tarde.
Eu não tenho conselhos
nem consolos.

As palavras não acalentam,
e não há nada a ser feito.
Cansado de ser vivente.
Há um canto fúnebre
prestes a explodir em minhas cordas.
É uma marcha, passos ao abismo.

Os sorrisos são máscara,
cobrem o rosto e disfarçam.
A maior piada é estar vivo no caos
sem ao menos ter o direito
de desistir. Não é normal.
Seria egoísmo meu, dizem.

Eu abraço os afazeres
para esquecer a luz que não tenho.
Sou neblina, sou veneno eficaz.
Duas doses de insanidade eu tomei,
agora eu corro por aí
e ando dez quilômetros a pé.

Eu trabalho, produzo, finjo que
escrever me deixa bem.
Todo jovem está meio morto,
metade do caminho andado
até a idade em que desejamos morrer.
Já desejei duas vezes hoje.

A morbidez do poema
é apenas o reflexo.
Charles escrevia sobre merda
com tamanha naturalidade,
porque sua natureza era podre.
Mas ele tinha a desculpa de ser velho.

Eu tenho ainda mais folhas,
mais versos que não conversam
e desabafam, apenas.
Mas sobrou também a vergonha
em dizer os pormenores do fracasso.
Sinto que não estou bem.

Mas me diga você, que chegou até aqui.
Está contente com a vida?
Não julgarei seus olhos,
cada um escolhe suas lentes e vive.
Só questiono sua autorreflexão.
No todo, no caos, você está bem?