Medo do quê?

Medo do quê, neguim? Sei que nossa pele desperta ódio, mas o amor nunca teve cor, essa preocupação é coisa de quem te escravizou. “Ah, ele é negro, mas é gente boa”, que se foda, tá procurando um amor, não uma patroa. Não entregue currículo com foto três por quatro, mas vale se apaixonar por quem também confia no seu taco.

Quem cola contigo e te quer bem, vai te fazer sentir que dá pra ir além. Além da mediocridade que te prometeram, além do carnaval – amores de fevereiro. Ouvi dizer que que seu corpo é a máquina perfeita pro sexo. Mas que ideia errada, argumento sem nexo. Você pode até ser bom na cama, mas escuta: você pode chorar. E o seu medo de falar que ama, também impede de alguém de te amar.

Medo do quê, neguim? De um sentimento não correspondido? Na vida já correu bem mais perigo. Decepções moldam o caráter, sem tristezas no caminho a vida perde o sentido. Fé em si mesmo, na tua cultura, ergue essa cabeça na rua. Amar é democrático, e agora até que tá mais fácil. Seu povo amava mesmo sob a pressão do chicote, e nesse amor te concebeu pra ser um preto forte.

Medo do quê? Medo de quem? Acha mesmo ninguém percebeu? Medo do amor dos outros ou medo da falta do seu?

Sonhos

Tua bunda empinada pra trás,
Tua cara de quem não quer paz.
Toda safada, um tapa na cara e
Tu pedindo mais.

Hoje, eu sonhei contigo
e acordei daquele jeito.
“O que aconteceu,
que sonho foi esse?”
– Não lembro direito.
Uma resposta cínica,
com um desejo contido,
o zíper aberto, a calça explodindo
e o tesão subindo, o tesão subindo.

Preta, seu mundo é tão diferente do meu
Parece um conto erótico
de Julieta e Romeu.
Não combinamos em quase nada
apenas no instinto animal.
Eu falo que gozei, tu goza de novo
Depois de gemer recupera o fôlego –
Aahhhh –
Que sonho real!

Tua bunda empinada pra trás,
Tua cara de quem não quer paz.
Toda safada, um tapa na cara e
Tu pedindo mais.

Preta, preciso te ver essa noite.
Não aguento mais o desejo de longe.
Já faz tanto tempo que eu quero te ter,
quero fuder, te ver gemer, enlouquecer
Me entregar e me perder,
Me lambuzar e te envolver.

Tenho dois mundos: o mundo real
e o mundo dos sonhos.
Tô tão confuso,
de nenhum dos dois eu sou dono.
Fui derrotado,
não tenho um ás,
Deito na cama, tu rebola e senta
te entrego o trono…
e peço por mais.

Tua bunda empinada pra trás,
Tua cara de quem não quer paz.
Toda safada, um tapa na cara e
Tu pedindo mais.

Artista

Peço licença para começar aqui o monólogo da solidão. Tenho uma retórica convicta presa na garganta, um martírio do eu-lírico que precisa ser exposto. Uma navalha dilacera minha alma, enquanto caminho sozinho pelas ruas asfaltadas desta grande cidade. Mas espere, acho que precisamos de música para nos acompanhar. Qual a melhor? Bem, pode ser que I get along without very well caia bem.

Meu coração está quebrado, não consigo dizer desde quando, mas dói tanto. Faltou conhecimento para que eu pudesse consertar. Mas quem poderia saber como fazer isso? Tomei amores e mais amores como remédios receitados de oito em oito horas, mas nada foi eficaz. Genéricos não me servem mais e desde que percebi tal verdade, ando sozinho com notas de choro atravessadas na garganta, sem ar e nem força para gritar.

A tônica da vida tem sido essa: amo, deixo, apaixono, sofro, me fecho e morro. Sabe quantas vezes eu já morri? Você sabe quantas vezes eu já morri? Nos dedos eu conto as mais impactantes mortes. Morri quando Aninha morreu, morri quando Madalena virou pó, e segui morrendo, morrendo, morrendo cada vez que lembrava delas. Mas não se atenha a isso, morri por quem não beijei, morri por quem não me amou. Como não posso mais morrer, resolvi andar sozinho e chorar quando parar para descansar.

Vivo a cantar músicas tristes, rir com os amigos para disfarçar a dor e rir dos amigos para mascarar minha insuficiência em mim mesmo. Eu poderia ter nascido rico, mais inteligente ou até mesmo bonito, mas nada me seria o bastante, pois nasci sem saber receber amor. O destino dos cachorros bastardos é a rua, acham uma matilha, mas no fundo se sabem sozinhos.

(A música acabou?)

Eu pedi licença no começo, porque ninguém gosta de encostar em um moribundo. Ainda na infância encontrei a literatura para lavar minha alma, porém, hoje, meus versos estão apodrecidos por falta de correspondência. O estranho é que eles só fedem para mim. Arrancam aplausos de uma maioria, lágrimas emocionadas de uma outra parte. Vocês são sádicos! Todos que aplaudem poetas, são. Que espetáculo há no sofrimento transcrito? Mas tudo bem, a culpa minha por ter fingido tantas vezes em forma de poesia.

Eu tentei de tudo para suprir a falta de algo que nem sei se já tive. Religião, bebidas, amigos, amantes, trabalho e o que mais possa haver. Mas ainda sinto que há um caco de vidro preso em minhas entranhas, tudo que faço dói. Me falta algo? Me falta alguém? Talvez seja redundante demais chamar um monólogo de “monólogo da solidão”, podemos então dizer que é carência. Assim me sinto melhor, não parece ser tão forte ou importante.

Eu choro de noite. Quando chego em casa e me pego com pensamentos deploráveis, uma sensação íntima me visita e eu transbordo. Mas chorar não alivia, apenas constata que não estou nada bem. Nesse momento eu estou desabafando com você por motivo algum. Me sinto mal, um lixo, e preciso compartilhar. Estou vivendo há vinte e quatro anos tentando descobrir como burlar o destino e só coleciono fracassos desde que comecei. Eu ando só e isso me faz ficar depressivo.

Sinto falta de uma mão sobre a minha cabeça, de um corpo me tomando em abraço com a capacidade de me fazer acreditar que ficarei bem. Preciso urgentemente desse analgésico barato, uma pele, uma boca, as palavras corretas e uma hora de amor. Não é a cura, mas é o que posso exigir. Talvez você tenha chegado a conclusão de que eu preciso é de mim mesmo, essas porcarias clichês reproduzidas por aí. Eu já pensei nisso e não, não preciso de mim. Eu me tenho há muito tempo e já não me basto mais. O que me preencherá então? Não sei. Eu não sei o que há de ser, mas tenho consciência de que ando só.

Fim. Me aplaudam por favor.

Madrugada

Essa noite eu catei o lençol da cama e abracei forte,
era como se quisesse espremer algo,
fazer cair dali um sentimento que já se foi.
Talvez fosse saudade, afinal.

A noite passava vagarosamente
(segundo a segundo)
e eu, à beira da cama sentado, refletia.
Se ao menos tu estivesses aqui!

Minhas mãos se deram conta do frio no quarto,
e eu tremia com uma mistura de sensações.
Era como uma casa velha recém-visitada
e abandonada logo em seguida.

Eu me senti só. 

Já não é tempo de ranger os dentes em choro
tentando tatear a fugacidade de dois corpos.
Eu passei por uma tempestade forte
e só agora senti a dor de sobreviver.

Apertei o lençol um tanto mais, com força.
O frio começava a dissipar por conta do ardor no peito.
A vontade era de gritar, mas era madrugada.
Se ao menos tu estivesses aqui!

Eu poderia sentir o cheiro que me acalma em noites assim,
abraçar uma matéria mais quente
e sentir um beijo que não fosse da ansiedade.
Deve ser saudade, só pode ser.

Agora é de manhã.

Caí em sono involuntário com o pesar da dor que carregava.
Acordei, e meu corpo abraçava o nada,
como quem estivesse acostumado com a presença de alguém ali.
Respirei fundo e senti meu peito bater forte.

Depois da inquietude da madrugada restou-me um luto,
que deveria ter sido vivido no momento certo, mas protelei.
Olhei o nosso lençol que ficou; ainda é meu.
Tu não, não estás aqui.

Abracei a mim mesmo numa tentativa de simular teu abraço,
que senti já não me caber como antes,
aconcheguei-me em mim mesmo por minutos.
Era de fato saudade, mas passou.

Casa de família

Um homem estava chorando no canto da sala. Ele soluçava, gritava e batia no próprio peito, não falava muito além de balbucios misturados à constantes engasgadas. Parecia devastado. Sua cara estava marcada, haviam várias linhas de expressão facial e as lágrimas não paravam de escorrer.

Ele estava sentado no chão, com uma calça preta, um camisa social abarrotada e uma gravata frouxa, meio acabada. Seus cabelos estavam parte na cabeça e parte em suas mãos, que descontroladas tremiam. Com as costas na parede acinzentada, o homem fazia um sinal com a cabeça, como quem estivesse em estado de negação.

A luz da sala estava acesa e evidenciava toda a bagunça encontrada ali. Uma poltrona velha revirada, a TV no chão e um tapete com muitas manchas escuras. Não era uma sala com muito espaço e ficou ainda menor por tudo estar fora do lugar. Sobre o porcelanato branco haviam livros, cacos de vidros, uma faca e dois corpos.

O homem continuava chorando no chão. Chorava copiosamente, como se tivesse acontecido uma tragédia. Era comovente a cena e ao longe já se ouviam as sirenes da polícia local. Os vizinhos estavam preocupados, ouviram barulhos e ficaram quietos, mas estavam preocupados. Era possível ouvir os gritos de desespero do homem mesmo quatro casas depois.

Era lamentável e digno de pena. Escorado num outro canto da parede estava uma mulher, vestida com trajes de trabalho, com a bolsa sobre as pernas. A julgar pelas alianças iguais, sua esposa. Esta estava com a cabeça baixa, não dizia nada. Talvez muito em função de sua garganta contar com um buraco e estar completamente ensanguentada. O homem fitava os olhos na esposa, não acreditando na cena que via.

Não fosse o bastante, era avistado um corpo menor, talvez de uma jovem de quinze anos. Os cabelos tinham a mesma cor do cabelo da primeira mulher e seu corpo era magro. Este estava descoberto de roupa, estirado de bruços no tapete onde caíra a TV, o mesmo cheio de machas escuras. O homem não olhava esse outro corpo, a poltrona que estava no chão, cobria o ângulo que permitiria essa triste visão. Ela não levantava por nada e se afogava sobre a desgraça.

Um choro inconsolável tomava conta do homem, ninguém saberia ao certo os sentimentos presentes naquele coração ao ver a devastação em sua casa. Os dois corpos imóveis, as sirenes se aproximando, roupas e objetos pela casa, a sala ficava mais destaca por conta das luzes apagadas da cozinha.

Eram lágrimas doloridas, de tal modo que despertariam empatia em qualquer um que estivesse ali no momento. Era impossível ignorar a dor que aquele homem sentia, exceto, é claro, pelos curiosos arranhões no braço e a arma suja de sangue que ele carregava em uma das mãos.

Os cachorros tristes da Avenida Tristão

Pobres cachorros da Avenida Tristão, estes não têm comida todos os dias, como os outros da Praça do Relógio. Não é que os sarnentos na praça sejam de raças melhores, mas recebem mais atenção porque se localizam melhor, as migalhas caem mais. A noite na avenida é mais fria, e os cães vagabundeiam próximo à nova estação. A estação, por sinal, serve como refresco à memória, jamais esquecerão de que a prioridade não é suas vidas invisíveis. O Estado é cego e não trata bem os animais. Alguns viram o começo e o fim das obras e continuam lá, na rua, mas outros viram começo e só, morreram no caminho.

No meio da matilha há cachorros pretos, brancos, velhos, novos, valentes e mansos, mas todos têm em comum a falta de um lugar para onde voltar. São únicos, mas igualmente perdidos. A maioria sobrevive dos lixos e encontram trapos velhos para dormirem durante o dia. A noite é fria demais e nela os cachorros correm para se manterem aquecidos. Agitam-se para que não lhe fiquem gélidas as patas, para que não precisem entoar um uivo de luto por algum cão que desfruta do alívio de não estar mais nas ruas.

Como são pobres os vira-latas da Avenida Tristão! Cabe-lhes bem o nome da avenida, pois são tristes e desgraçados em suas vidas, nasceram de frente ao sofrimento e se banharam nas águas da solidão. Bebem todos os dias da fonte da dor. Eles são muitos, mas sozinhos.  A companhia dos outros cães serve individualmente para lembrarem que nem lhes foi concedida a honra de serem os mais infelizes, que dividem a comum miséria. Não lembram em nada as crianças baianas que roubavam para sobreviver, em Capitães da Areia. Os cães somente têm a Deus, isso quando ele não está ocupado com as petições das velhas que frequentam a igreja ao lado da estação.

Os homens passam por cima e, quando generosos, atiram um pedaço de pão. As mulheres têm medo. De fato alguns mordem, há de se entender o receio que faz com que mudem de calçada. Os cachorros latem com fome, com sede e às vezes só para chamarem atenção. Mas no fim são cães, ainda que alguns carinhos eles ganhem, são invisíveis no dia corrido dos trabalhadores do centro da cidade. Seria injusto de minha parte se não lhes narrasse outro aspecto em comum dos cães: estão todos doentes. A maior parte possui doenças físicas e cicatrizes da vida, mas uma pequena parcela está apenas agonizando por dentro, doenças psicológicas adquiridas por traumas e feridas na alma após os maus tratos.

É difícil identificar as poucas vezes em que sorriem. Os dentes não se mostram mais e as bocas rachadas do sol só encontram descanso à noite. Os latidos são roucos e fracos, mas profundos e inesquecíveis. Eles lamentam baixinho quando cansam de gritar. Esqueceu o criador de suas criaturas ou apenas lhe é cabível que sofram? Sob o céu azul que evidencia o calor, os cachorros da Tristão tentam sobreviver, mas onde há um respiro de liberdade é depois das vinte horas. À noite, as pessoas já foram embora e a rua é toda deles.

Nessa hora os cachorros se sentem donos de algo além de sua própria pobreza, podem caminhar fora das sombras e não serem julgados, nem mesmo pelas prostitutas que dividem o céu escuro com eles. Mas é também nessa hora que as forças vão embora e o sono chega para combater a fome. É triste a vida dos cães. No outro dia, tudo de novo, cuspes, cara de desprezo, medo, raiva e até abuso de seus corpos. “Xô, sai pra lá cachorro imundo, sai da porta da minha loja.” “Vai pulguento, vai embora, vai!” Quem mandou fugir de casa? Agora estão aí, ao relento, disponíveis ao coração duro dos homens.

Cachorros que não têm lar sofrem a rejeição de morar na rua. Amontoam-se uns nos outros para satisfazerem falsamente a vontade de terem alguém, um dono que fosse, mas são livres, donos de si e por consequência de mais nada. Se ao menos fugissem para a Praça do Relógio, onde seriam vistos com mais frequência. Mas não podem, porque a praça já está cheia demais, não há calçadas disponíveis e nem bancos que façam sombra durante o dia. Não há nada para os cachorros cheios de feridas, não há paz nem acalento. A esperança não se pode dizer se há, mas há sobrevivência. Até quando? Até quando os latidos fizerem sentido ou ainda tiverem forças para serem destacados. Mas todos latem, todos gritam, todos são ignorados na multidão.

Pobres cachorros da Avenida Tristão. Pobres cães que a carrocinha não leva e que não são adotados, não são tratados, não são curados. Que fogem da discriminação, que vivem à margem das ruas, deitados sobre os meios-fios, caçando uma sombra de dia e um pano de noite. Que apanham, que apanham e que são xingados enquanto apanham. Os cães sem lar, sem irmãos, nem pais, sem comida no prato e nem migalhas que caem rotineiramente. Desgraçados cães que ouvem tiros e correm, e caem, e morrem. Pobres cães de rua, que dó dos cães!

O cavalo na calçada

A queda demora uns três segundos. Um, dois, três. Pronto, o brinquedo arremessado do terceiro andar, uns dezoito metros aproximadamente, está agora na calçada do apartamento, na rua da frente. Era um cavalo amarelo com pelos marrons, de plástico seco, com uma base que simulava a terra enlameada de um sítio, pesava algumas gramas e era frágil.

Dois homens passam juntos pela mesma calçada minutos após o estraçalho do brinquedo. Até meia hora antes, tudo que se ouviu na Rua Santo Arcanjo foi o barulho de um cavalo que não relinchava. Nenhum choro, nenhum grito. Mas os homens que passavam notaram o desastre. Quebraram o silêncio absoluto.

– Olha, alguém deve ter deixado cair. Meu filho tem um desses, ele adora brincar de fazenda, com os carros, os bois, os cavalos.

Disse o primeiro homem, que ouviu do segundo uma resposta.

– Eu também havia comprado um desses para o Jonas. Acho que ele teria adorado.

O segundo homem baixou a cabeça enquanto o primeiro, um tanto preocupado, procurou seus olhos para um contato com algum significado. Na Rua Santo Arcanjo voltou a reinar um silêncio intransponível e o cavalo de plástico permaneceu lá, com a cabeça num canto e cacos no outro, por mais três dias.