Pedaladas

Pensa na responsa hoje. Dois neguim na rua se contendo pra não assaltar ninguém. Vendo a polícia em vários cantos e fingir um “ainda bem” pra disfarçar um “caralho, vai dar merda”. Eram dois: um sem camisa com cabelo cacheado; o outro com a camisa de botão toda aberta, com cara de muçulmano.

Infelizmente hoje eles tiveram que aproveitar somente o vento na cara, umas ideias trocadas e muitos planos pra vida. Nada de apavorar população, nada de tomar o que é dos outros e nem sussurrar o combinado pra ver quem é a próxima vítima. Dois amigos conversando alto numas bicicletas emprestadas, pedalando 7 km, altas risadas e parceria. Da BM pra Bezerra é chão, chão que o pneu toca e leva.

Os nego tão voando, aposto que você nem viu. As ideias de uma movelaria e o emprego novo na assessoria tão acima do preconceito. Nenhum dos dois, apesar da cara fechada, lembrou das más intenções. Afinal elas já vêm na cor, né? Os dois mais suados que tampa de cuscuzeira param pra água de coco, pra batata chique, pra consertar a corrente da bike, caiu.

E cai também a ficha de que os dois pedalam livres, pobres, amargurados. Cheios de ressentimentos com os episódios recentes da vida, ainda têm tempo de comemorar pequenas coisas. Nenhum baculejo hoje, tinha uns mais suspeitos na rua. E de novo, esses pretos não mataram ninguém.

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Turbilhão

Eu sempre vou precisar de você para acudir meu choro. Como foi no banco da igreja, quando só seu coração entendia o meu. Eu era um pecador e soluçava de chorar. Tinha tanto amor e medo que só você conseguiu ficar perto até o fim, me segurou.

Eu precisava de você e preciso ainda mais hoje. Como no dia que me viu sentado no interior da loja que trabalha, veio perguntar o que houve e descobriu pela minha boca a doença da minha mãe. Quase choramos juntos, mas você segurou.

Eu não sei o motivo exato, eu até confundi tudo e deixei cada ato desse se sobrepor as suas más atitudes. Acredito precisar de você como precisei naquele dia em que um cara estranho, na praça, ofereceu uma pulseira colorida me dizendo que era uma aliança para nós.

Desculpa desabar aqui, numa declaração que muito mais parece um texto qualquer que escrevo na madrugada. Mas eu aprendi muito sobre mim, descobri que apesar de poder viver a solidão todos os dias, a ausência que eu mais sinto é a sua. Sabe, eu preciso de você porque me sinto completo até com a indiferença que, as vezes, me dá.

Eu fiz meu coração ser da cor do seu, ele sangra e pinga azul, mas talvez isso não importe tanto. Nenhuma desculpa me convence, só a realidade da insuficiência de amor para passos mais profundos. Eu preciso de você porque eu amo todo o turbilhão que faz em mim quando simplesmente penso no seu nome.

Outros rumos da poesia

Dedico esta carta a ti, meu grande amor. Ainda que eu saiba da falta de coerência que possa haver entre seu começo e fim, quero tentar escrever-te algo.

O papel vai meio manchado de sangue, mas não te importa a limpeza do receptáculo em dias tão sujos, não é mesmo? Penso haver mais sentido em entendermos o passo que estamos dando. É que os versos são contaminados pelo contexto, e a cidade transpira dois sentimentos: orgulho e medo.

Não sei bem o que gostaria de te dizer em poucas palavras, mas desejo-te sorte e que possas alinhar esta senhora casual ao cuidado sem medidas em seu dia a dia. Vais precisar de cada respiro que puderes dar e, se me queres junto aos meus românticos versos, precisarás também de cada gota paciência em tua alma.

Meu bem, há muito em mim para declamar-te, mas estou comprometido em resistir e te peço que resistas comigo. Resista ao tempo e a falta, a escassez de amor e a bonança de lutas. Eu luto para ver, em teus olhos, meus olhos cansados e encorajados a serem combatentes ativos dos medos em meu peito. Mas luto muito mais pela liberdade de meus versos. Sem voz, não posso dizer que te amo.

Não quero dar-te um tempo para que eu volte a poetizar as abstrações individuais que me cercam. Por enquanto, amor, falarei do que interessa aos amigos que não se fazem ouvir, ou que não podem mascarar suas intenções de resistir em uma carta. Pretendo dedicar palavras a uma conhecida de nossos irmãos mais velhos, ainda que ela me seja repreensiva.

Tu me entendes, então? Acaso eu deixe de escrever sobre teu sorriso, teus cabelos, teus olhos grandes ou meu desejo por teu corpo, não significa que não te amo mais. Apenas achei uma causa tão grande quanto meus sentimentos e maior que a dor de não estar contigo, seria-me a dor de não mais poder poetizar.

Resisto e, se vivo, volto.

Sebastião

Quando as ondas fortes bateram novamente, Sebastião não hesitou em dizer “preciso voltar”. Havia muito em jogo, mais que seu orgulho, mais que seu sonho de adentrar o mar. É provável que nesse momento, o velho teimoso tenha se dado conta da importância de entender seu tamanho. Não é heroico morrer afogado na loucura, ainda mais quando se sabe que a onda é demais para o seu barco de madeira.

Haviam anos desde a última vez que Sebastião tinha lançado âncora, eu lembro de suas palavras dizendo que a sua essência era ir em frente, enquanto houvesse possibilidade de viver, viveria. Mas já não havia. A onda que o fez desistir já estava batizada, virara tantas vezes o barco de um lado ao outro que Sebastião chamava-na pelo nome.

Fora da água também há vida. Essa frase ecoou em sua cabeça durante um tempo e o sentimento foi invadindo o convés. Deu saudade da sequidão da terra, do abafado sob as telhas e do restante das coisas que deixou de ser para se unir ao mar. Eu avisei. “Não vai Sebastião, o mar é grande.” Ele achou ser maior. No fim me agrada saber que ele encerrou a loucura quando recitou no meio do oceano seu verso mais sofrido.

“Com a faca no peito
eu deixo de ser e ter,
sou pequeno e sou veleiro,
sem vento não vou.

Eu volto, oceano,
eu volto pra terra insatisfeito,
com a dor de morrer,
ou da saudade.
Com a dor de encher uma garrafa
e não poder chamar suas águas de mar.”

Apressados e sem apreço pela vida

Nós estamos apressados, isso é preocupante. Cheguei a esse raciocínio hoje, numa caminhada de 15 minutos pelo Centro de Fortaleza, e consegui sentir o impacto do tempo escasso sobre o ser humano.

Era apenas mais um dia em que meu caminho precisava ser seguido em direção ao trabalho, mas me senti angustiado pelos segundos disputados tico à teco com o ponteiro vermelho do relógio.

Logo ao descer do ônibus, atravessei a primeira rua tranquilamente e fui pego de surpresa quando uma senhora quase foi atropelada tentando passar na frente dos carros, com sinal verde para os automóveis. O instinto de parar salvou a mulher apressada de quase 60 anos.

Nesse instante percebi que os segundos estão supervalorizados em alguns momentos específicos. Não era um beijo da pessoa amada, um impulso para salvar alguém, o abraço de algum ente querido próximo da morte. Era apenas pressa. Vontade de ganhar segundos totalmente dispensáveis na travessia de uma rua.

Claro, o cotidiano é uma loucura para a grande maioria das pessoas. Há grande possibilidade dela ter pego um congestionamento, demorado no coletivo, se atrasado para bater o sagrado ponto na firma e ter se apressado para reduzir os danos que essa sequencial desventura pode causar.

Mas é possível pensar no famoso “se” em ocasiões assim. E se o carro não reduz a velocidade por também ter em sua condução um motorista apressado? E se o sensor de perigo não funciona nessa hora? É preocupante se o que tiver para dar errado, simplesmente der.

Instantes depois desta senhora, presenciei mais duas pessoas acometidas pela pressa. Uma rua estreita, carros passando e um sinal vermelho para pedestres, é tudo que parece excitar os apressados e estimular a impaciência irrepreensível nessas mentes conturbadas e acostumadas com a luta caótica por segundos ganhos.

Me preocupa o momento em que o tempo vai parar, numa colisão inevitável entre duas pressas sem freio. Um passo adiante e pode não ser que se tenha ganhado segundos no dia, mas perdido o tempo que restava.

Não sei se a maioria de nós, mas estamos vivendo em um frevo acelerado e frenético. São passos largos a caminho de quê? “Me faltam poucos minutos para chegar, preciso correr!” Fico com a impressão de que, apressados, somos descuidados. Tenho preferido andar por longos anos a correr por hoje e só.

Dor do parto

eclodiu no peito o substituto da saudade.
aos poucos os mundos que entraram em colapso
se distanciaram em avenidas da cidade.
te vejo em um lapso
e obscuramente encontro teus sinais
formando um mundo novo.
não há em tua criação a paz.
meu coração apertado abtrai-se de entender
já não haver luz nem sol para iluminar.
há um corpo debruçado sobre escuridão
remoendo dores do senhor Tempo.
cada dor, no fim, saber-se-á.
entenderei a desventura de teu corpo não me ser
presente, apesar da contrastante imensidão.
é preciso deixá-la ir e viver de vez o esquecimento.
na longitude então, morte a nós

Vidas imaginárias e poesias reais

Caros amigos, eu odeio ser poeta.

Trato esta história como tragédia. A vida é uma tragédia quando hipocrisia é confundida com a brilhante arte de fingir. Restam memórias, não tão claras, em minha cabeça e a amargura no peito de uma história mal contada. Os papéis rabiscados não me dizem quem eu sou.

Se há o mais miserável dos homens, cá está ele. Dêem-me motivos para contestar minha condição tão somente após lerem meu relato. É que minha dor me faz adiar os versos em que começarei a assumir minhas mentiras, enganos e o desespero velado pelo silêncio do medo.

Eu escrevo como quem escolhe a vida que se quer ter e acabo por me deparar com a inexistência de uma que seja real. É intangível a dor que sinto, não há como tratar as pontadas na consciência de quem mente para si mesmo, escrevendo as maiores obras de amor enquanto vive uma carência desmedida.

Tenho necessidade de alguém que saiba me curar. Acredito que há certa ironia nos caminhos já tortuosos da vida, pois agraciaram-me com talento e memórias afetivas para que eu não desse conta de lembrar que, na estrada, eu não tenho ninguém.

É necessário mentir um pouco quando se resolve entregar-se às loucuras das palavras. Exageros tornam a arte mais palpável e causam identificação com maior facilidade. Mas o que diabos me faz falar sobre o amor mesmo sem eu ter vivido uma experiência de contato com ele?

Não que eu sinta precisão de um amor dividido, mas há hipocrisia nos versos meus quando falam dos olhos teus. Mas “teus” não é, no caso, um pronome bem empregado, porque não há ninguém aqui, ali ou um alvo em quem eu deposite a verdade do meu peito.

É confuso demais, eu sei. No entanto, amigos, ponho meu sentimento nas palavras que escrevo agora, como não pus em textos passados. Eu não amei de fato, eu me formei amante por empatia e escrevi o que não era meu em vida, mas era meu desejo profundo.

Talvez então o fato de ser poeta me torne um ser sem sorte, entregue ao marasmo do destino. “O homem que mais falou de amor, foi um que nunca foi correspondido”. É um anúncio trágico quando se dá importância e eu dou muito significado a isso. Escrevo agora no meio dos anos, mas não me vejo capaz de pensar em possibilidades que mudem o fardo que haverá em meu futuro.

Talvez seja verdade meu pensamento de morrer em uma cadeira de balanço depois de várias visitas, mas nenhuma hospedagem na minha velha casa de piso morto. Fingir amor tem sido o motivo fútil da minha poesia. Mas ao mesmo tempo em que recebo os aplausos, sinto que entendo como é amar e adentro numa bipolaridade onde eu mesmo me frustro, decepciono e supero a dor.

Meus riscos não me dizem quem sou, porque são frutos de uma imaginação livre e não de sentimentos concretos, experiências reais. O que me intriga bastante é não saber como lidar com a falsa crença em mim mesmo, pois acabo acreditando que esses versos são minha vida. A vida que escolhi viver.

Caros amigos, eu disponho de tempo para quem quiser me convencer, mas não tentem, é esforço vão. Porém fico grato se em todas as vezes que receberem meus registros, passarem a me indagar sobre a veracidade da história.

No fim serei alvo da tragédia, um poeta sem amor próprio e que escreve o amor que gostaria de ter. Talvez aí esteja minha resposta, posso ser idealista e apreciador dos detalhes, por isso tenho escrito até as brigas e feridas que o amor causa.

Reitero que eu odeio ser poeta, mas não é uma condição da qual possa me livrar. Se eu parar, não terei mais vida alguma, ainda que antes não tivesse algumas partes desta, não de maneira sincera. Caso eu largue as palavras terei um buraco em meu peito, justamente por não poder completar com ficção o que não obtive na vida real.