O pássaro que não vai pro céu

O pássaro tem uma pedra amarrada em seu pé. Ele não voa, mas canta. É uma pedra pequena, porém atrapalha e lhe impede de voar. O pássaro não sabe o que fazer, nunca antes havia pensado sobre uma pedra amarrada ao pé.

Segue cantando, mas sem voar. Foi fraco, não bateu asas o suficiente e por isso lhe amarraram uma pedra. E se ele bicar a corda? Difícil romper, é uma linha transparente e resistente. As asas pequenas não conseguem alçar voo, pois há uma pedra amarrada ao  pé do pássaro. Nem era uma pedra tão grande, há pássaros com pedras maiores.

O fato é que ele continuou cantando. Pedido de socorro ou conformidade? Não sei, só sei que não voa, mas canta e às vezes pula. Se vier um predador, será difícil escapar, porque tem uma pedra amarrada em seu pé, e os pássaros não correm tão rápido quanto os gatos. Por enquanto, canta.

É só mais um pássaro com uma pedra no pé, não sei a intenção de quem amarrou a pedra. Acho que foi de mantê-lo baixo, pertinho do chão, impedir o pássaro de subir. Monopolizaram o céu.

Anúncios

Raíz

Eu abro os olhos sob as telhas do meu quarto, umas mais espaçadas que as outras. Tem umas goteiras por aqui. As paredes estão pintadas há muito tempo, mas só dois terços delas, o resto é tijolo puro. Ainda assim a tinta já está gasta, temos uma cor branco cimento. É meio rústico, pra não dizer que faltaram recursos pra essa parte da obra.

Minha casa varia o piso de acordo com o cômodo, às vezes azulejo, alguns cantos com cimento queimado e quase toda ela de piso morto. Mas quer saber? Eu amo. Não vou mentir, queria dar uma melhorada, ter uns móveis legais, mas não tenho. Paciência e vida que segue, não é essencial.

Sabe o que é importante? O que aprendi nessa casa, na minha rua, no meu bairro, nas escolas públicas que estudei desde o primeiro ano do fundamental. Isso vale muito. Eu aprendi a respeitar muita gente e quem eu não respeitava como deveria, a vida foi me ensinando de um jeito pesado. Só aprendi porque vim de onde vim, com uma humildade característica de lá.

Eu falei com um amigo sobre uma menina rica que ele tava conversando, mandei seguir na dele. Entendo a tensao dele, mas é melhor nao fingir nada. Se tá liso, tem calçadas que fazem valer a pena o rolê, tem uma sofisticação especial no lado simples da coisa. Se respeitar é importante pra chegar com confiança onde a gente quer, ou em quem.

Eu me intimido com gente que vem de outra realidade, acho que é normal. Mas sou rápido em ficar a vontade pra dizer quem sou, o que penso e mostrar a essência de quem vê aquele telhado bagunçado todo dia. Meu joelho é ralado de correr e cair no calçamento, minha alma também de tanta porrada que levei da vida. Mas tudo é aprendizado.

Nesse período aprendi a ter força pra entender a lição de cada coisa e junto com isso entender quem eu sou. Hoje eu sei que um preto não tão escuro ainda pode ser um preto foda e respeitado pelo que é, não pelo que fez ou tem pra oferecer.

Tenho talento, mas ele é meu, logo nao resta tangível pra dar. Dinheiro ajuda quase sempre, eu sei, já quis ser livre, mas também já quis ser burguês. Hoje? Quero ser eu, a cada passo dado um pouquinho mais eu.

Ainda vou reformar meu quarto, mas minha alma é da terra batida. Já passei a tal necessidade, hoje quero fartura. Então que venha a abundância de dinheiro, de confiança, de autoestima e de amor.

O amor que eu sou capaz de me dar é impossível de ser roubado. Eu amo minhas raízes e isso é incrível, eu sinto. Fico feliz vendo quem cresceu comigo chegando em algum lugar, fico felizão ao chegar em algum lugar e notar que cresci, mudei, mas não me esqueci. Nesse momento, por lembrar, eu noto que sou feliz.

Lamento

Os vagalumes mortos não brilham.
Os cachorros mortos não latem.
Os pássaros mortos não voam –
Nem cantam por liberdade.
Eu, vivo, não choro.
Não pelos vagalumes
Por não brilharem.
Não pelos cachorros
Por não latirem.
Não pelos pássaros
Por não voarem e cantarem.
Eu, vivo, choro.
Por você,
De saudade.
Por você,
De remorso.
Por você,
De amor.

Cada passo dói

Nós temos tanto medo de chegar onde desejamos. Não julgo. Perder pedaços próprios e se recompor no caminho é doloroso, difícil demais. Dói mais quando os dias são frios e não há recompensa calorosa de amor em reciprocidade ao nosso sacrifício.

Uma vez ouvi que a dignidade é nossa única parte que ninguém pode roubar, é verdade. Mas por vezes é preciso abrir mão de um pouco dela, martirizar-se ao pisar no próximo degrau cheio de espinhos. Pode não fazer sentido na teoria, mas quando nos damos conta estamos praticando exatamente essa filosofia.

Apesar do medo, me parece melhor sentir o desprazer da dor e progredir do que suportar a monotonia de estar e ficar. E é evidente que o desejo sobre o lugar onde queremos ir será alimentado de acordo com essa crença. Eu prefiro ir. Nunca entendi os motivos de eu me sentir tão mal a cada despedida. Hoje sei que se perde muito ao cortar uma raiz.

Abandonar um amor, deixar uma casa, sair de um emprego de longa data ou deparar-se com a retirada abrupta de alguém, tudo dói. Por mais que seja necessário um desapego periódico, a dor ainda incomoda para além da razão. Eu sei onde quero estar, mas não tenho certeza do tanto que quero. Estamos errados se temos consciência de que estamos errados?

Eu tenho medo. Nós temos, eu sei. Perdi a conta de quantos pedaços já deixei, mas ainda me incomoda deixar mais. Ainda dói. Cicatrizes não apagam memórias, a ferida ainda está na alma. Não posso te dizer quando estarei pronto. Ninguém é cura, não estamos doentes, só inseguros. Após tanta dor, decepção, frustração e o que mais derivar disso, é justo não sabermos quando ir em frente.

Mas se posso dizer, sei de uma coisa. É natural, é nosso e nunca perderemos isso, carregamos no peito, desde os ancestrais, a vontade de caminhar. Não fomos feitos para parar. E como disse, eu vou. Escolho ir nem que seja um passo de cada vez. Espaçados, fortes e meus.

Trovoa

Minh’alma trovoa, colidindo com a sua numa esquina qualquer, no céu, encima do mar. Trovoa! E o barulho é estrondoso ensurdecedor, a paixão incomoda nós dois, que dançamos na chuva.

Trovoa e os cachorros latem, os pássaros não cantam. Assusta adultos e crianças, gera um relâmpago – rápido, iluminado – que eu chamo de amor.
Não dura, não perpetua, voltamos a ser como minha voz: faz barulho e trovoa!

O tempo está fechado, querida. Está tão cinza acima de nós. O sol se escondeu, minha vida! Estamos sós nesse temporal. Encosta teu peito no meu, me abraça e se faz escutar. Nessa manhã seremos nuvens, então:

Trovoa…
Faz trovoar.
Trovoa.

Olhos castanhos

Ainda não, querida.
Não estou pronto para te anunciar
minha partida decidida de uma vez.
Não quero esbarrar contigo e chorar.
Prefiro não voltar a pensar em ti,
nem na cor dos olhos teus.

Eu vou evitar as desculpas.
Não serei ludibriado novamente,
pois já não nos compartilhamos mais.
O desejo de ficar é menor que a dor,
mas tu não sentes nada, meu bem.
Quem sente sou eu.

Teve que ser assim, em poesia.
Se te encontro arrisco não ir de novo.
Não mais é cedo, excedi meu tempo
de estar a procura de algo que era nosso.
Teus olhos castanhos ferem os meus,
que estão cansados de te amar.

Adeus.

Pai, eu não sou feito de madeira

Bença, pai!

Como tá por aí? Espero que tenha algum serviço bom, ainda acho que a marcenaria pode lhe render bons lucros, mais que na construção civil, só precisa achar o cliente certo.

Falando em marcenaria, tenho uma memória vaga sobre o primeiro prego colocado para formar nosso caixote de recordações, um cravo que a ponta me deixou desconfortável por muito tempo. Era noite já quando chegou bêbado, em meados de 1998, antes de julho, e não conseguia ficar de pé sem cair sobre nossos poucos móveis. Talvez a inocência da minha infância me tenha feito sofrer menos em relação a essa situação e partir daí tive a indecência de não querer ajudar em nada a um bêbado caído no chão da cozinha.

Até me recordo bem de você estendendo a mão em busca de apoio para levantar, mas além de não ter força para isso, no vigor dos meus 3 anos de idade, não me restava qualquer vontade. Dei as costas e saí. Eu escrevo sobre isso hoje porque faz sentido que eu perdoe cada vez que, por engano, você deve ter pensado que meu coração era de madeira e aguentava as marteladas raivosas que saíam de sua boca. Perdoo sua incapacidade de perceber que eu era vidro e esfarelei.

Pai, estúpido não é o adjetivo que eu gostaria de ouvir na infância por não ter visto que minha irmã caiu. Na verdade eu tentava lhe agradar, mesmo sem forças, mesmo sem estrutura e sem a noção exata de quem era você: o homem que elogiava minha inteligência para os vizinhos ou o que gritava e ameaçava dar surras num merda estúpido, ignorante e atrevido? Não descobri até me permitir ser mais que suas expectativas.

Agradeço a Deus o fato de ter havido uma grande mudança de chave na sua vida. No mesmo ano em que você desmaiou bêbado na cozinha, em julho alguém lhe sussurrou para que entrasse numa igreja, e assim o fez. Quem diria, não é? Pelo menos a partir daí você não culparia o álcool pelas suas constantes crises de raiva, pelos seus excessos, pela inspiradora rispidez com que tratava a família e pelas confusões que envolviam todos. Desculpe-me, meu pai, mas, até minha adolescência, você era um monstro que dava medo, mesmo após aceitar a ideologia de um Cristo benévolo e caridoso.

Mas não fique mal, escrevo-lhe muito mais por desapego dessas emoções reprimidas do que por raiva e traumas carregados até hoje. Na verdade, nossa relação se fortaleceu com mais pregos ao longo do tempo e o laço familiar foi o verniz que evitou o desgaste permanente proveniente nossas brigas e discussões. Sei que se lembra do dia que me mandou embora porque revidei aos insultos públicos! Quando estava com a mochila pronta para sair, minha mãe impediu que eu fosse.

Acho que aprendi com você que sair de casa e fugir dos problemas é mais fácil que controlar a raiva. Talvez por isso, tantas idas e vindas suas, o que mais parecia uma tentativa inconsciente de assassinar seu casamento e destruir sua família. Nunca entendi o porquê de seu anseio de liberdade ter impedido tanto a gente de se estabilizar financeiramente. Cada saída evidenciava a dificuldade financeira que teríamos a seguir. Acho que em algum momento, meu pai, seu orgulho fez nossa pobreza mais dolorosa. Apesar de tudo. ainda bem que não se foi de verdade.

Dói lembrar-me de tudo, por isso escrevo como um expurgo dessa dor. Mas dor maior deve ter sentido minha mãe ao receber um soco do homem que ela escolheu amar. Isso é mais recente, nunca ouvi um pedido de desculpas seu e vou cobrar sempre essa dívida. Eu sei que vocês reataram, mas naquele momento não foi só uma agressão contra sua esposa, foi contra o exemplo que sempre quis dar aos seus filhos. Lembro que, chorando, eu disse para você que acabava ali todo e qualquer exemplo de homem que já tinha me dado.

Mas foi da boca pra fora, afinal, ainda existia um laço e parece que você foi amolecendo com os dias. Não são apenas coisas ruins que regem nossa relação, lágrimas de felicidade e preocupação também existiram. Mesmo que um pouco tarde para reverter todo o trauma, eu pude sentir amor vindo daí, pude entender que meu choro sempre seria um incômodo para uma casca tão robusta quanto a sua, que ao mesmo tempo aprendeu a ser sensível por dentro.

Acontece, pai, que talvez agora o primeiro prego não incomode tanto, afinal já temos tantos sustentando nossa caixa de lembranças! A madeira acostumou. Acho que vou precisar de uma moldura, daquelas madeiras bem robustas e revestidas com marfim, para dar destaque ao quadro que adquiri hoje, um que fala sobre nós. Eu cresci e vejo que a melhor opção é lhe fazer saber de tudo isso para que entenda sobre algo que aprendi sozinho, o perdão.

Pai, apenas corações de carne podem perdoar. Está tudo bem entre nós, aqui jaz minha intensidade de sentimentos e resta apenas o que há dentro da caixa que construímos: as memórias. Precisamos aceitar o que passou, de verdade, precisamos mesmo. Quando isso ocorrer e você conseguir se perdoar, vai acreditar no meu perdão e já velho, seu coração sentirá paz. A ponta do prego não mais está para fora.

De seu filho, José